Quando fracassar é a melhor coisa

Uma vaga na Federal? Quem não quer? Quem abriria mão?

Desde cedo, a universidade foi minha meta. Desde as primeiras boas notas no ensino fundamental, desde a minhã mãe dizendo que tinha que ser alguém na vida. Quis ser muita coisa, desde então. Quis ser professor, mas me assustei com o caos da educação pública. Quando criança, queria escrever. Mas, não se como, esse sonho foi se perdendo através dos tempos. Talvez porque quase ninguém tem escritores bem sucedidos (leia-se: gente que consegue pagar suas contas apenas escrevendo) entre seus vizinhos. Quis enveredar pelos caminhos da publicidade, mas me disseram que jamais venceriam as “panelinhas”, por mais que pouco entendesse o que isso significa. Tentei até o design, mesmo sem saber desenhar um circulo com o fundo de uma garrafa. Mas é o que se faz quando se tem apenas 18, o melhor ENEM de sua escola e uma bolsa de 100% do Prouni. O problema não era o Prouni, e sim eu, que não sabia o que fazer com ele.

Gostava de computador. De computador, não de facebook. Gostava de saber como eles funcionam. A lógica por trás deles. Toda a coisa do digitar algo na barra de endereços e o mundo aparecer no seu navegador. Assim, em 2011, tinha uma vaga na concorrida UFSCar, no concorrido curso de Sistemas de Informação. Tinha uma vaga EaD, na verdade. Mas a grade era a mesma, os professores eram os mesmos. Bom!

Bom! Exceto pelos 4 anos que passei me sabotando diante desta tela. Tentando me convencer de que poderia fazer algo que na verdade não poderia. Quatro anos sentando aqui, diante desta tela, tentando ler alguma coisa, assistir alguma vídeo aula, digitar algum código… Sem sucesso. Quatro anos, mais de 10 DPs… O sentimento de uma faca revirando suas vísceras todas as vezes que alguém perguntava “como vai a faculdade?”, “você foi bem na prova?”. Não, eu não fui. Eu não estava bem. Eu estava mal. Muito mal. Sabia que tinha que sair, que largar, mas não conhecia a porta de saída. Afinal, quando se entra para uma Federal, a única porta de saída possível é o diploma.

E os anos passavam, as DPs e a insatisfação aumentava… “Largar uma Federal…” Não é o tipo de coisa que sabemos fazer. Até porque seria o segundo fracasso. O curso de Design também só durou um ano ao invés dos quatro que deveria durar. Mas lá, a média do Prouni me obrigou a entender que aquela não era a minha praia. Não tive escolha. Foi duro, difícil. Uma semana de choro. O garoto de menos de vinte anos ganhou e perdeu uma bolsa na faculdade. E agora, estava prestes a reviver esse filme, novamente.

Como estou escrevendo este texto para três fontes diferentes, vou alcançar um público muito diversificado. Por isso digo que não sei se todos vocês, leitores, creem em Deus. Mas eu creio. E sempre tentei fazer tudo debaixo de Sua guia. Exceto o curso de Design, que reconheço que fiz muito mais por uma euforia pós-adolescente. Mas agora, eu cria que estava ali, na UFSCar, por uma porta que Deus abriu. Mas ‘tava tudo dando errado. Como explicar? Era uma questão de fé, também. E isso é o que doía mais.

Mas, não dava para sustentar mais esta situação. Trabalhar o dia todo, sentar diante do computador durante à noite, e fazer de conta que estava estudando. Estava mentindo para mim mesmo, e para todos que me perguntavam sobre a faculdade. Inclusive para minha própria mãe, que me via noites e fins de semana inteiros com livros e computadores na mão. E, no fundo, mentia para muitos. Criei blog, páginas e grupos sobre programação. Mais de 20 mil seguidores. Não! Nunca tentei “vender” uma imagem de “programador” nestes grupos. Nem mesmo os vídeos de tutoriais eram meus. Eu era muito mais um promotor do que qualquer outra coisa. (Aliás, talvez leve jeito para isso. Deveria considerar). Mas, o fato é que eu era e sou um fracasso no mundo da computação.

Enfim, em 2015, eu desisti completamente do curso. Até hoje, poucos — inclusive minha mãe — entendem. Não foi fácil assumir mais um fracasso. Perdi de novo. Mais uma vez comecei, e não terminei. As vezes penso em recomeçar outro curso, mas confesso que tenho medo de um terceiro fracasso. Não tem jeito, sou humano.

E quanto a fé? Bem, eu creio que aquela foi uma oportunidade trazida por Deus. E também foi um aprendizado. Ser religioso, às vezes, implica em um pensamento errado de que sua vida será só vitórias, “só bençãos”. Mas é óbvio que não dar para ser cristão e pensar assim, pois nem mesmo o nosso Cristo teve uma vida só de vitórias. Creio que nessas oportunidades, Deus estava me ensinando a vencer e a perder, pois isso faz parte do grande jogo da vida. Há bençãos nas derrotas também. Há aprendizado, análise. Há oportunidade de rever valores. Tenho 29 anos, mãe, irmãos, sobrinhos, namorada. Sou feliz. Não tenho o melhor dos empregos e nem o melhor dos salários, mas sou feliz. E tenho apenas 29, há muito o que viver ainda. Pude aprender que essa corrida atrás do sucesso se torna burra quando você nem sabe definir direito o que é sucesso.

Muitos entram em depressão após fracassos assim. Muitos se sentem pressionados a vencer a qualquer custo. Mas, o que é vencer? O que é o topo? Muitos concluem seus cursos e vivem bem e felizes. Mas outros se descobrem deslocados depois de 5 anos de carreira, mesmo ganhando mais de 5 mil/mês.

Temos sim que ser “alguém na vida”. Mas, o que é “ser alguém”? Quanto custa? E quanto se ganha? Esta não é uma resposta exata. Para cada um, pode significar uma coisa diferente. Cabe a você achar a SUA resposta! ainda que você tenha que pedir ajuda á uma força Superior, como é o meu caso, rsrs.

No meio deste turbilhão, criei um blog evangelístico. Era para postar algo, de vez em quando. Amo blogs! Escrever relaxa, e me relaxava no meio daquela bagunça que era minha vida acadêmica. E aqui que digo que para tudo há um propósito, ou que há males que vem para bem, ou que devemos enxergar o copo meio cheio, ou.. enfim, rsrs. O blog deu muito certo. É gratificante receber e-mails de pessoas que se sentiram ajudadas com palavras positivas. Comecei a levar a coisa de escrever a sério. Já publiquei algumas coisas no Wattpad, entre livros cristãos, crônicas, contos e poesias. Vou começar um processo mais apurado de revisão, e quem sabe publicar tudo isso? É apenas um “quem sabe?”, por enquanto. E entre tantas mensagens de agradecimento, pedidos de ajuda, e novas amizades que fiz, conheci aquela quem breve se tornará minha esposa. :) Quando estava me inscrevendo para um curso de sistemas de informação, não sabia quantas boas coisas acabaria encontrando no caminho.

Enfim, escrevo esse textão para desabafar, para compartilhar experiências. Sinceramente, não escrevo para evangelizar (ainda que isso possa acontecer, e ainda que me sentisse feliz se isso acontecesse). Mas escrevo mesmo é para compartilhar minha experiência. Fracassei! Que bom! E sabe de uma coisa? Tô vivo! Graças a Deus! Encantado com a possibilidade de começar tudo de novo: seja na área da informática, ou da música, onde já sou envolvido há mais de uma década, ou escrevendo meus livros, ou do direito, que a minha namorada me ensinou a gostar… Ou até da costura, que, através da minha mãe, colocou comida no meu prato durante anos. É mais que fracasso, é recomeço. Se você chegou até o fim deste textão, minha mensagem é: não tenha medo de fracassar, não tenha medo de assumir fracassos. Não tenha medo de sentir a dor, chorar, e recomeçar. Não tenha medo.

E outra mensagem: o que é valor para você? Será que é apenas um diploma e um salário? Será que fazer o que gosta não conta mais? Será que vale a pena se sacrificar por uma salário, apenas? Para quem gosta do que faz, até vender cachorro quente dá dinheiro. Tem tia da barraca que ganha muito mais que muito diplomado por ai. Não estou pregando contra o estudar e o se formar. Mas quero que cada um — concordando ou não com esse texto — pergunte a si mesmo: “o que é valor para mim?”

6 ideias sobre “Quando fracassar é a melhor coisa

  1. MaSomerhalder

    Entendo o que você passou… também fracassei em relação aos meus estudos. Resolvi cursar Pedagogia depois de cursar um ano e meio de Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Na época eu sofria imensamente para aprender todas aquelas linguagens e infelizmente, tive alguns professores que não estavam nem aí para o aprendizado do aluno. Para você ter uma ideia, o meu professor de HTML5 usava uma apostila que baixou da internet para ministrar nossas aulas… era um absurdo e isso tudo contribuiu para que eu desistisse do curso e me senti o próprio fracasso.
    Já o curso de Pedagogia também não é tudo aquilo que eu esperava… ou talvez eu é que não tenha ainda descoberto o que realmente gostaria de fazer na minha vida, não é mesmo?

    Um forte abraço e fica com Deus!

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  2. Erick

    Nossa. Encaro minha vaga no curso de Analise e Desenvolvimento de Sistemas, dessa mesma forma, pedi tanto a Deus! E me pego na maiorias das vezes questionando se eu não deveria desistir da mesma e nos últimos dias, as perguntas como : “O que seria prazeroso para mim?”, “Talvez, eu não saiba ao certo que fazer?”, surgiram.A culpa surge, pois pedia um curso a Deus! Venho estudar JAVA pelo Youtube, que diga-se de passagem, é a linguagem que está me pesando este semestre e, CABUM, estou aqui lendo esse texto! Obrigado por compartilhar sua experiencia! Que Deus abençoe suas decisões!!!

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  3. Esmeleleu

    Gostei. O que interessa mesmo é que sejamos felizes. Não importa em que é que se trabalha, desde que seja com gosto. E não importa se o vizinho/amigo/irmão/primo ganha mais do que nós. Se o que temos nos chega, para que havemos de querer mais? Só para termos mais do que o outro? Para mostrar à sociedade? Por causa das aparências? Que se dane tudo isso e a opinião de quem não andou nos meus sapatos. Os supostos fracassos apenas foram uma forma de encontrar o caminho certo.

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  4. LAILA

    LINDA SUA HISTÓRIA DE VIDA NÃO SE PREOCUPE SE O QUE VC ESPERAVA NÃO DEU CERTO O IMPORTANTE É QUE VC TENTOU MUITAS COISAS EM NOSSA VIDA NÃO DÁ CERTO MAS TEMOS QUE TER MATURIDADE PARA APRENDER A LIDAR COM SITUAÇÕES ADVERSAS VC É UM EXEMPLO DE ESFORÇO DESEJO QUE TUDO VÁ BEM NA SUA CAMINHADA E SAIBA QUE VC É ESPECIAL UM GRANDE ABRAÇO FIQUE COM DEUS

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